domingo, 13 de dezembro de 2009

Copenhague – Reducionismo x Gaia

Resumo do Post:
O aquecimento global está em pauta. Na conferência de Copenhague se reúnem as maiores autoridades planetárias para definir o quanto precisamos nos mexer (ou não).
Neste ensejo, muitas polêmicas estão, mais do que nunca (como diria Fausto Silva), sendo levantadas.
A maioria de nós ainda pensa de forma muito reducionista, encarando atos e conseqüências sem muito cuidado e deixando de lado aspectos sutis mas de fundamental importância para entendermos a natureza do planeta em que vivemos.
Contrapondo o entendimento reducionista do mundo, temos a hipótese de Gaia. Muitas teorias levianas são montadas em torno do conceito de Gaia, o que faz com que muitos o tomem como um mito sem fundamento, mas a verdade é que esta teoria tem muito a nos ensinar.
Inicialmente conheci a hipótese de Gaia como sendo a hipótese de que a Terra seria um organismo vivo, e sempre interpretei esta afirmação “ao pé da letra”. Sendo assim, achava que era uma teoria um pouco furada (como acredito que muitos devam achar), tinha a convicção de que a Terra não tem uma consciência (no sentido mais convencional da palavra), não tem sangue correndo nas veias, não tem nenhum dos requisitos mínimos para ser considerada um organismo vivo. Mas este novo conceito de Gaia, baseado em fatos científicos, realmente me chamou muito a atenção.
A proposta deste Post é apresentar esta teoria controversa e propor a seguinte indagação: temos uma compreensão suficientemente profunda do planeta para nos julgarmos aptos a reunir um conjunto de pessoas e decidir o futuro do planeta?
Aos que toparem a discussão, sigam em frente no Post...



Only to the braves:
Cavaleiros do Apocalipse sentenciam que os seres humanos estão fadados a serem extintos em breve, pois o caminho que foi tomado já não tem mais volta.
Cucas “frias” dizem que este papo de aquecimento global é “intriga da oposição”, e que não há aquecimento nenhum na Terra. E tem até quem diga que, não só a Terra não está esquentando, como na verdade está se resfriando.
Professores pardais surgem com idéias mirabolantes e dizem que, simplesmente bombeando certos elementos no céu e nas nuvens, seria possível criar uma “proteção” que resfrie a Terra.

Bom, polêmicas à parte, será que a temperatura da Terra é realmente a única coisa que importa? Será que, mesmo que a Terra não esteja mesmo se aquecendo, ou de repente esteja se aquecendo em um ritmo totalmente aceitável (e não estou dizendo que está), não precisamos nos preocupar com a preservação do meio ambiente?
Alguém teria a coragem de negar que nossas águas, a cada dia que passa, estão mais e mais poluídas? Que as grandes quantidades de fumaça jogadas no ar são prejudiciais à saúde das pessoas (e dos outros animais)? Ou afirmar que não há problema em continuarmos com nosso ritmo de desmatamento??? Penso que não!

Mais uma vez nossa visão reducionista, e altamente voltada a números frios e isolados, nos faz perder o senso da realidade. Nos faz acreditar naquilo que é mais conveniente acreditar ao invés de nos fazer entender melhor a complexa realidade da vida.

Analisem com calma o seguinte ciclo:

- Vulcões jogam enormes quantidades de dióxido de carbono (CO2) no ar;
- O CO2 é reciclado em forma de oxigênio pelas plantas, mas a respiração dos animais equilibra esta troca (e esse ciclo, em si, já forma também uma grande rede de interconexões complexa e delicada). Sendo assim, o Dióxido de Carbono precisa ser eliminado da atmosfera;
- Para ajudar no processo de reciclagem de CO2, a natureza conta com a erosão das rochas. Estas combinam-se com a água da chuva e com o dióxido de carbono, e formam substâncias químicas denominadas carbonatos;
- Assim sendo, o CO2 é retirado do ar e retido em soluções líquidas;
- Essa solução é arrastada para os oceanos;
- Algas invisíveis a olho nú transformam a solução em conchas calcárias de carbonato de cálcio;
- Quando as algas morrem, essas conchas afundam no oceano e formam compactos sedimentos de pedra calcária;
- Devido a seu peso, com o tempo, as pedras se afundam no solo oceânico e voltam ao local de origem;
- Parte do CO2 será eventualmente jogado, pelos mesmos vulcões, de volta ao mesmo ar!



Este é um dos ciclos do Dióxido de Carbono, e, por si só, já seria bastante interessante. Mas há ainda um adicional a este processo. Este adicional faz parte da hipótese de Gaia, elaborada inicialmente por James Lovelock, onde uma das importantes características da hipótese é a de que a Terra possui seu próprio mecanismo de “auto-regulação” do Dióxido de Carbono (e conseqüentemente da temperatura da Terra).
- Certas bactérias aceleram a erosão do solo;
- A altas temperaturas, as bactérias se tornam mais ativas causando maior erosão do solo;
- Com a maior erosão, há mais combinação com  CO2, que volta em maior quantidade para os oceanos;
- Desta forma a temperatura da Terra se mantém praticamente constante através do importante conceito da “auto-regulação”.

Resumindo: mais calor, mais resfriamento; menos calor, menos resfriamento. Em um processo complexo, autônomo e consistente de “auto-regulação”. Este processo com certeza causaria inveja a muitos cientistas, engenheiros e profissionais de TI, pois envolve a monitoração de informações complexas, regulação através de infindáveis parâmetros e certificação de eficiência através de processos de realimentação contínua. É certamente uma obra de engenharia das mais geniais e sofisticadas que poderia existir, o “estado da arte” em termos de sistemas de monitoração e controle. O trecho exemplificado é obviamente apenas uma ínfima porção da rede toda e, mesmo este trecho, está bastante simplificado,  mas creio que é possível extrapolar o conceito e ter uma idéia da dimensão do conceito que está sendo discutido.

E é importante notar que não estamos falando de partes isoláveis que podem ser encaradas na forma de leis básicas e da interação de blocos separados através de parâmetros bem definidos. Estamos falando de uma enorme teia de interações onde qualquer instabilidade em qualquer nó da teia pode trazer alterações para todo o sistema.
Essa complexidade poderia nos levar a outra questão: será que o fato de os animais gerarem tanto CO2 e consumirem oxigênio e as plantas fazerem justamente o contrário é mera coincidência? Será que a simbiose entre animais é mero instinto? Será que todos esses ciclos são mesmo mero acaso ou há uma explicação por trás (seja ela “física” ou “metafísica”)? Esta discussão ficará para outro (ou, mais provavelmente, outros) Post. Mas quem quiser discutir nos comments pode sentir-se à vontade.

A questão central deste Post é: será que realmente podemos continuar ditando o rumo do planeta monitorando uma única variável e, pior do que isso, considerando-se apenas a taxa de crescimento graus Celsius / ano?

E o engraçado é que, se por um lado nós simplificamos demais certas questões para, convenientemente, enxergar apenas o que nos interessa, por outro lado transformamos questões simples em teorias mirabolantes com o mesmo objetivo. Por exemplo, discute-se a hipótese de a floresta amazônica começar a reduzir como efeito do aquecimento global causado pelas agressões à natureza realizadas pelo homem. Porém, neste exato momento (tanto neste em que escrevo quanto no momento em que você estiver lendo este Post) provavelmente há alguém derrubando mais uma árvore da Amazônia de forma ilegal e descontrolada. Por que será que insistimos tanto em complicar fatos simples e simplificar temas complexos???
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