Para a leitura deste Post, recomendo fortemente a leitura prévia do Post de introdução, onde uma explicação básica sobre o tema é dada e também um guia dos Posts relacionados na ordem em que devem ser lidos para melhor compreensão.
Desnewtoniando: Crise Financeira x Ciência Moderna: Introdução
Resumo do Post:
Neste Post será abordada a ilusão da constância, baseada na não-percepção da natureza dinâmica das coisas.
Podemos encontrar esta natureza tanto na teoria sub-atômica e, portanto, no mundo do invisível de tão pequeno, quanto na teoria do Big Bang e, portanto, no mundo do inalcançável de tão extenso, e neste caminho também passando pelas mais diversas áreas como o misticismo, os grandes impérios e, principalmente, pelo tema focado nessa seqüência de Posts, a crise mundial.
O comportamento de expansão/contração (bolha) ocorrido durante a crise já foi visto diversas vezes e, nada mais é, do que um aspecto intrínseco do comportamento das coisas na natureza. A história (e agora a ciência) vem provando que, toda vez que tentamos contrariar essa natureza “oscilatória” intrínseca, ela mesma se encarrega de implantar a semente da transição.
Para uma compreensão mais detalhada desta análise, leia a sessão seguinte.
Only to the braves:
Na física os cientistas estão descobrindo cada vez mais a natureza dinâmica das partículas sub-atômicas. Além do mundo sub-microscópico, este dinamismo parece dominar também o universo, demonstrando que a dinâmica é um princípio intrínseco de tudo o que compõe o nosso mundo.
O Big Bang:
Para entendermos o dinamismo, no que se refere ao universo, devemos lembrar que a ciência, através da teoria do Big Bang, concluiu que o universo originou-se a partir de uma grande quantidade de energia e matéria (que, a lembrar, são na verdade duas faces de uma mesma realidade) condensadas em um único ponto e que expandiram-se como que em uma explosão. Os cientistas estão, inclusive, tentando botar à prova esta teoria, como bem lembrou nosso leitor Rodrigo, com o uso do LHC (Large Hadron Collider).
O princípio básico do Big Bang é um pouco mais bem conhecido, mas o que nos importa agora é um fato não tão conhecido, o fato de que observações indicam que o universo está em expansão, e, algumas interpretações das equações de Einstein, sugerem que esta expansão acabará, e transformar-se-á em uma contração, que se dará até que o universo todo seja novamente um pequeno ponto condensado de matéria e energia formando um ciclo de “expansão-contração” (não sei o quanto isto ficou claro, mas está implícita nessa idéia a inevitabilidade da extinção de qualquer forma de vida, pelo menos da forma em que a conhecemos).
Apenas para citar rapidamente outras correntes filosóficas que reconhecem esta característica dinâmica e sempre transitória da natureza, temos as filosofias místicas orientais. O budismo, por exemplo, enfatiza o “vazio” fundamental que a tudo cria e que tem o “potencial” para formar todas as coisas. O hinduísmo, por sua vez, enfatiza a eterna dança das transformações promovida por Shiva que, de tempos em tempos, destrói o mundo como o conhecemos para que possa ser reconstruído. Mas isso com certeza será novamente abordado em outro Post, no futuro.
O núcleo atômico:
Voltando à ciência, quando analisamos esta natureza dinâmica sub-atomicamente, encontramos forças que unem fortemente os “núcleons”, e que têm, por característica uma forte atração para partículas que encontram-se distantes, porém uma forte repulsão para partículas que encontram-se próximas, criando um verdadeiro “estilingue” de sub-partículas. Este é o comportamento do mundo das partículas que faz com que haja entre elas as velocidades absurdas já citadas no Post anterior (a lembrar, 960km/s), criando duas situações extremas nas quais as partículas ficam oscilando, de forma incomensuravelmente (e inimaginavelmente) dinâmica, de aproximação e afastamento, “contração-expansão”.
Yin e Yang:
Esta natureza dinâmica e de opostos que se equilibram e oscilam eternamente em muitos pontos assemelha-se à natureza de outra filosofia oriental, a do “Yin” e do “Yang”. Esta semelhança também será discutida em Posts futuros, mas pode ser vista através do fato de que o brasão de armas do renomado físico de Mecânica Quântica Niels Bohr tem o símbolo chinês do Tao yin-yang e acima deste a frase, em Latim: "Contraria sunt complementa" que significa que “os opostos são complementares”.
Apenas para dar uma breve idéia da principal relação existente entre estas duas realidades, a filosofia yin-yang baseia-se no equilíbrio, na geração de um evento através de seu oposto, na oscilação entre extremos, na mudança constante inerente à natureza. Analisando-se as duas propostas mais detalhadamente (da física e do equilíbrio yin e yang) é possível chegar a paralelos surpreendentes.
Crise x Ciclos naturais:
Ao tentarmos contrariar esta tendência da natureza de re-estabelecer um equilíbrio, e acreditarmos que um crescimento poderia ser eterno e constante, acabamos por cometer mais um dos pecados do reducionismo.
Na história do mundo, diversas vezes pôde-se presenciar impérios que ascenderam devastadoramente (no sentido mais literal possível da palavra), mas todos acabaram por cumprir sua trajetória dinâmica de ascensão e queda.
Acredito que tanto impérios que crescem além de sua própria sustentabilidade quanto empresas, governos, países, corporações ou qualquer outro tipo de entidade tendem a chegar (como expresso pela filosofia yin-yang) à semente de sua própria auto-aniquilação. Parece-me que o que ocorreu na crise foi algo muito semelhante a isso, mercados (como o imobiliário) que se expandiram de forma totalmente não-auto-sustentável através de uma “auto-alimentação” que acabou culminando em uma “auto-destruição”, efeito muito bem representado pelo termo com qual foi nomeado, uma bolha.
Voltando ao misticismo, note que o símbolo de Yin e Yang mostra opostos que se revezam, quem está em ascensão e quem está em queda, e cada um dos opostos trás dentro de si (simbolizado por um pequeno ponto da cor oposta) a semente do “nascimento” de seu oposto.
Penso que, para conseguirmos alcançar transições menos traumáticas (do que, por exemplo, na crise) precisamos começar a detectar quando uma atitude está agressiva demais (comercialmente, monetariamente, psicologicamente, estrategicamente ou em qualquer outro aspecto) para que nós mesmos possamos tomar providências para equilibrar o sistema de forma saudável, antes que a própria natureza se encarregue de “plantar a semente” da “aniquilação e recomeço”. Acredito que esta filosofia deveria ser aplicada muito urgentemente na questão da preservação da natureza, e também em nossa crença fortemente enraizada de que um país só é próspero se aumentar seu PIB todos anos infalivelmente, desconsiderando outros aspectos que deveriam ser muito mais importantes, mas isso também será tema para um próximo debate.