sábado, 10 de outubro de 2009

Crise Financeira x Ciência Moderna: Parte II

Recomendação:
Para a leitura deste Post, recomendo fortemente a leitura prévia do Post de introdução, onde uma explicação básica sobre o tema é dada e também um guia dos Posts relacionados na ordem em que devem ser lidos para melhor compreensão.
Desnewtoniando: Crise Financeira x Ciência Moderna: Introdução


Resumo do Post:
Neste Post será abordada a ilusão da constância, baseada na não-percepção da natureza dinâmica das coisas.
Podemos encontrar esta natureza tanto na teoria sub-atômica e, portanto, no mundo do invisível de tão pequeno, quanto na teoria do Big Bang e, portanto, no mundo do inalcançável de tão extenso, e neste caminho também passando pelas mais diversas áreas como o misticismo, os grandes impérios e, principalmente, pelo tema focado nessa seqüência de Posts, a crise mundial.
O comportamento de expansão/contração (bolha) ocorrido durante a crise já foi visto diversas vezes e, nada mais é, do que um aspecto intrínseco do comportamento das coisas na natureza. A história (e agora a ciência) vem provando que, toda vez que tentamos contrariar essa natureza “oscilatória” intrínseca, ela mesma se encarrega de implantar a semente da transição.
Para uma compreensão mais detalhada desta análise, leia a sessão seguinte.

Only to the braves:
Na física os cientistas estão descobrindo cada vez mais a natureza dinâmica das partículas sub-atômicas. Além do mundo sub-microscópico, este dinamismo parece dominar também o universo, demonstrando que a dinâmica é um princípio intrínseco de tudo o que compõe o nosso mundo.
O Big Bang:
Para entendermos o dinamismo, no que se refere ao universo, devemos lembrar que a ciência, através da teoria do Big Bang, concluiu que o universo originou-se a partir de uma grande quantidade de energia e matéria (que, a lembrar, são na verdade duas faces de uma mesma realidade) condensadas em um único ponto e que expandiram-se como que em uma explosão. Os cientistas estão, inclusive, tentando botar à prova esta teoria, como bem lembrou nosso leitor Rodrigo, com o uso do LHC (Large Hadron Collider).
O princípio básico do Big Bang é um pouco mais bem conhecido, mas o que nos importa agora é um fato não tão conhecido, o fato de que observações indicam que o universo está em expansão, e, algumas interpretações das equações de Einstein, sugerem que esta expansão acabará, e transformar-se-á em uma contração, que se dará até que o universo todo seja novamente um pequeno ponto condensado de matéria e energia formando um ciclo de “expansão-contração” (não sei o quanto isto ficou claro, mas está implícita nessa idéia a inevitabilidade da extinção de qualquer forma de vida, pelo menos da forma em que a conhecemos).
Apenas para citar rapidamente outras correntes filosóficas que reconhecem esta característica dinâmica e sempre transitória da natureza, temos as filosofias místicas orientais. O budismo, por exemplo, enfatiza o “vazio” fundamental que a tudo cria e que tem o “potencial” para formar todas as coisas. O hinduísmo, por sua vez, enfatiza a eterna dança das transformações promovida por Shiva que, de tempos em tempos, destrói o mundo como o conhecemos para que possa ser reconstruído. Mas isso com certeza será novamente abordado em outro Post, no futuro.
O núcleo atômico:
Voltando à ciência, quando analisamos esta natureza dinâmica sub-atomicamente, encontramos forças que unem fortemente os “núcleons”, e que têm, por característica uma forte atração para partículas que encontram-se distantes, porém uma forte repulsão para partículas que encontram-se próximas, criando um verdadeiro “estilingue” de sub-partículas. Este é o comportamento do mundo das partículas que faz com que haja entre elas as velocidades absurdas já citadas no Post anterior (a lembrar, 960km/s), criando duas situações extremas nas quais as partículas ficam oscilando, de forma incomensuravelmente (e inimaginavelmente) dinâmica, de aproximação e afastamento, “contração-expansão”.
Yin e Yang:
Esta natureza dinâmica e de opostos que se equilibram e oscilam eternamente em muitos pontos assemelha-se à natureza de outra filosofia  oriental, a do “Yin” e do “Yang”. Esta semelhança também será discutida em Posts futuros, mas pode ser vista através do fato de que o brasão de armas do renomado físico de Mecânica Quântica Niels Bohr tem o símbolo chinês do Tao yin-yang e acima deste a frase, em Latim: "Contraria sunt complementa" que significa que “os opostos são complementares”.

Apenas para dar uma breve idéia da principal relação existente entre estas duas realidades, a filosofia yin-yang baseia-se no equilíbrio, na geração de um evento através de seu oposto, na oscilação entre extremos, na mudança constante inerente à natureza.  Analisando-se as duas propostas mais detalhadamente (da física e do equilíbrio yin e yang) é possível chegar a paralelos surpreendentes.
Crise x Ciclos naturais:
Ao tentarmos contrariar esta tendência da natureza de re-estabelecer um equilíbrio, e acreditarmos que um crescimento poderia ser eterno e constante, acabamos por cometer mais um dos pecados do reducionismo.
Na história do mundo, diversas vezes pôde-se presenciar impérios que ascenderam devastadoramente (no sentido mais literal possível da palavra), mas todos acabaram por cumprir sua trajetória dinâmica de ascensão e queda.
Acredito que tanto impérios que crescem além de sua própria sustentabilidade quanto empresas, governos, países, corporações ou qualquer outro tipo de entidade tendem a chegar (como expresso pela filosofia yin-yang) à semente de sua própria auto-aniquilação. Parece-me que o que ocorreu na crise foi algo muito semelhante a isso, mercados (como o imobiliário) que se expandiram de forma totalmente não-auto-sustentável através de uma “auto-alimentação” que acabou culminando em uma “auto-destruição”, efeito muito bem representado pelo termo com qual foi nomeado, uma bolha.
Voltando ao misticismo, note que o símbolo de Yin e Yang mostra opostos que se revezam, quem está em ascensão e quem está em queda, e cada um dos opostos trás dentro de si (simbolizado por um pequeno ponto da cor oposta) a semente do “nascimento” de seu oposto.
Penso que, para conseguirmos alcançar transições menos traumáticas (do que, por exemplo, na crise) precisamos começar a detectar quando uma atitude está agressiva demais (comercialmente, monetariamente, psicologicamente, estrategicamente ou em qualquer outro aspecto) para que nós mesmos possamos tomar providências para equilibrar o sistema de forma saudável, antes que a própria natureza se encarregue de “plantar a semente” da “aniquilação e recomeço”. Acredito que esta filosofia deveria ser aplicada muito urgentemente na questão da preservação da natureza, e também em nossa crença fortemente enraizada de que um país só é próspero se aumentar seu PIB todos anos infalivelmente, desconsiderando outros aspectos que deveriam ser muito mais importantes, mas isso também será tema para um próximo debate.

5 comentários:

Unknown disse...

Caraca...o cara foi buscar até o brasão do Bohr...kkk...

O final desse post tava parecendo um daqueles textos de auto-ajuda...rs...ou então de algum horóscopo...rs...Brincadeira, foi bem conclusivo...


Não sei se você pretende chegar nesse ponto futuramente, mas essa "natureza oscilatória intrínseca" e o assunto tratado nesse blog de forma geral fazem parte de um conceito muito amplo: a "Teoria do Caos", que tem como uma das bases o "Efeito Borboleta" (aquele mesmo do filme).

Basicamente é o seguinte: na natureza a maioria dos sistemas não é linear, pelo contrário, são sistemas dinâmicos e complexos que trazem por consequência resultados instáveis e muito suscetíveis à ruidos e erros. Muitas vezes nós mesmos inserimos erros quando em algumas análises desconsideramos variáveis tomadas como sem importância. Em casos extremos pequenas variações podem trazer resultados imprevisíveis ou até aleatórios.

Einstein foi um dos que mais utilizou esse conceito, e foi assim que revolucionou a ciência no século XX. Esse seu post me lembrou de um fato no mínimo curioso que li num livro uma vez sobre um dos estudos de Einstein: a sinuosidade dos rios. Porque os rios não são retos? (Parece até aquelas perguntas sem resposta que fazemos quando somos criança, mas essa Einstein explicou...)

Os rios apresentam sempre uma sinosidade em toda a sua formação (a tal "natureza oscilatória intrínseca" que você citou) e não é só isso, descobriu-se que a relação entre o comprimento real do rio (considerando as curvas) e a distância em linha reta da nascente à foz é o famoso número PI (3,14...). Pois é, é meio inacreditável mas é verdade...rs...

Essa relação nasce do equilíbrio entre duas forças. Quando existe uma curva num rio, por menor que seja, a correnteza na parte externa dessa curva é maior, o que provoca um erosão maior, que por sua vez aumenta a sinuosidade da curva. Por outo lado quanto maior a sinuosidade de uma curva mais a água do rio é jogada contra a correnteza freando a mesma e diminuindo o efeito descrito anteriormente. Einstein descreveu isso em poucas palavras como "o resultado da batalha entre a Ordem e o Caos".


Quanto ao Big Bang e a expansão do universo, o modelo cosmológico de Einstein previa a expansão do universo de forma desacelerada. O problema é que há alguns anos atrás descobriu-se que a expansão do universo não está freando e sim acelerando. A existência da matéria/energia escura (aquela dos experimentos do LHC) seria uma explicação para isso já que não havia sido prevista anteriormente. Quanto ao futuro existem 3 teorias:

- Universo Plano: a expansão irá frear até parar.
- Universo Fechado: a expansão irá frear até parar e em seguida aconteceria a contração (que você citou) de forma acelerada podendo produzir o Big Crunch (contrário do Big Bang).
- Universo Aberto: a expansão continuará de forma acelerada indefinidamente.

Para concluir qual das 3 teorias é a verdadeira seria preciso conhecer a densidade média do universo, algo extremamente difícil principapelmente devido a matéria/energia escura que pouco conhecemos. Daí o esforço com o LHC.

Unknown disse...

Quanto a conclusão, eu não concordo. Na verdade não existe essa "lei do equilíbrio" e não se pode afirmar com certeza que tudo na natureza tem o comportamento de expansão/contração, ou qualquer outro comportamento.

Você deve lembrar do colégio técnico Liceu, quando nosso querido professor Carlos Wagner iniciou o assunto "Sistemas de Controle". Vimos que exitem sistemas de malha aberta e malha fechada, e nesse último ainda temos sistemas com realimentação negativa (que é efetivamente usado para controle de sistemas) e sistemas com realimentação positiva. Os sistemas de malha fechada com realimentação positiva fazem exatamente o que você tentou negar, um "crescimento eterno" e de certa forma "constante". Claro que na grande maioria dos casos existem limitações, mas ao menos em teoria isso é possível, principalmente quando tratamos de algo tão complexo e desconhecido como o universo.

Continuando com mais um pouco de teoria de sistemas de controle, quando estudamos estabilidade no curso de engenharia, vemos que existem sistemas:

- Estáveis: é mais ou menos o que você propôs como solução no "texto de auto-ajuda" (rs...), o tal "equilíbrio do sistema de forma saudável".
- Marginalmente estáveis: é o tal "comportamento bolha" (expansão/contração), "natureza oscilatória intrínseca", etc..
- Instáveis: como o próprio nome diz pode trazer resultados imprevisíveis, e engloba a tal realimentação positiva.

A "Teoria do Caos" foca principalmente nesses últimos dois casos.

Note que as 3 teorias do universo plano, fechado e aberto, podem ser entendidos respectivamente como sistema estável, marginalmente estável e instável.

Quando criticamos o reducionismo temos de ter o cuidado para não acabar caindo em um outro "reducionismo" apenas um pouco mais amplo.


Rodrigo Letang

Fábio Hideki Kawauchi disse...

Bom, quanto à teoria do Caos, até o presente momento não pretendo escrever sobre ele não, mas nunca se sabe não é?
E a explicação do rio realmente é muito interessante. Essa questão de só nos perguntarmos esse tipo de coisa quando somos crianças também é algo a ser considerado para um próximo Post, acho que seria legal. Acredito que a forma como educamos as crianças inibe bastante a criatividade e a "inventividade", porque privilegiam demais o "senta, cala a boca, aprende e não discute". Privilegia o ultrapassado "rigor científico" à criatividade humana (o que não deixa de ser mais uma herança da filosofia Newtoniana).

E quanto à "lei do equilíbrio", ela realmente se aplica muito mais a contextos não exatos. Na física o que existe de "mandatório" é o dinamismo não o equilíbrio (que é apenas uma forma de dinamismo).
Até voltei no texto para ver se não tinha cometido a "gafe" de ter chamado o equilíbrio de "lei", ou de ter dito que tudo na natureza obedece a esse comportamento. Seria possível ter acontecido, pois quando você leva muito a sério um ponto de vista, pode tender a vê-lo como único, e mesmo que não o veja desta forma pode acabar usando expressões muito enfáticas; mas felizmente, pelo menos até onde pude rever nos textos, não cheguei a este ponto.

E a negação da manutenção "eterna" de um determinado comportamento também é algo que tem que ser considerado em um determinado contexto. Não seria preciso nem ir tão longe para demonstrar que uma negação categórica como esta não é possível. Por exemplo, se eu arremessar uma pedra pra frente e nenhuma outra força externa for aplicada, ela não voltará nunca mais. Irá até o seu extremo e lá permanecerá eternamente.

Mas o dinamismo ocorre em eventos menos "macros", e o equilíbrio realmente é mais "presenciável" em análises das ciências não exatas (e em análises de longo prazo, e não pontuais).

E a sua visão da necessidade de evitar um novo reducionismo é bastante válida. Mas não é esta a intenção do Blog, e sim mostrar apenas mais uma forma de abordar os problemas cotidianos.

Muito embora, tudo que o homem criou até hoje (e talvez tudo que criará no futuro) são representações do que vemos, sentimos ou presenciamos. São reflexos da natureza mas não são a natureza em si. O máximo que conseguimos fazer são aproximações cada vez mais reais, mas ainda assim aproximações. O que nos leva ao que você chamou de "um reducionismo um pouco mais amplo".

A física moderna, apenas complementa uma lacuna da física clássica, mas não a invalida. O que devemos fazer é, uma vez que temos estes novos conhecimentos, usá-los, e não nos limitarmos à análise clássica da ciência.

Enfim, a idéia, de forma alguma, é criar um novo reducionismo, mas se esta impressão foi passada, então tomarei mais cuidado nos próximos Posts.

Muito obrigado pelo compartilhamento das impressões e abraços!

Unknown disse...

Apenas corrigindo, você citou sim "lei do equilíbrio". Veja a primeira linha de "Crise x Ciclos naturais". É normal isso, as vezes de tanto ler e reler algo acabamos não percebendo algumas coisas...rs...

Só acrescentando, a Teoria do Caos que prevê resultados instáveis é muito utilizada no estudo de ciências não tão exatas como por exemplo a meteorologia e a economia que vem sendo assunto principal desse blog nos últimos posts.


Rodrigo Letang

Fábio Hideki Kawauchi disse...

Sim, é verdade, fiz uma pequena alteração para minimizar esta idéia que realmente não pode ser encarada como uma lei. Obrigado pela correção.

Quanto à teoria do Caos, bom, precisarei encontrar materiais para poder ler e publicar algo, é uma boa sugestão.

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